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BBB 21 ressalta tema do colorismo, um debate necessário, mas cheio de armadilhas

Reality show turbinou discussão sobre o conceito nas redes sociais, mas abordagem é questionada

Por ALEX BESSAS para jornal O Tempo

O quadro “A redenção de Cam”, de 1895, do espanhol Modesto Brocos, simboliza o pensamento científico racista e eugenista que prevaleceu no Brasil do final do século XIX e começo do século XX, e que alimentou um ideal de embranquecimento da população em três gerações ou em um século. Portanto, à luz da história, a miscigenação, tantas vezes utilizada para reafirmar o mito da democracia social, foi estimulada pelas autoridades nacionais visando o apagamento da identidade negra do país, um aspecto que não deve ser desconsiderado no atual debate sobre o colorismo

O quadro "A redenção de Cam", de 1895, do espanhol Modesto Brocos, simboliza o pensamento científico racista e eugenista que prevaleceu no Brasil do final do século XIX e começo do século XX, e que alimentou um ideal de embranquecimento da população em três gerações ou em um século. Portanto, à luz da história, a miscigenação foi estimulada pelas autoridades nacionais visando o apagamento da identidade negra do país, um aspecto que não deve ser desconsiderado no atual debate sobre o colorismo
Foto: Museu Nacional de Belas Artes/Divulgação

Recentemente, depois de ser abordado no reality “Big Brother Brasil 21” (“BBB 21”), da Rede Globo, o tema colorismo ganhou projeção. Trata-se de um conceito que, em uma definição grosseiramente resumida, evidencia como pessoas mais retintas são mais vulneráveis à violência racista e, por conta da cor da pele e de outras características físicas associadas à população negra, têm menos acessos e possibilidades de ascensão social. Entretanto, no programa, a discussão sobre o assunto se deu de maneira um tanto problemática, revelando como essa formulação teórica, quando mal compreendida, pode funcionar como um embuste. No caso, sem que houvesse uma reflexão mais aprofundada, a gradação de cores foi usada apenas como meio de apagar a identidade que uma pessoa reivindica para si.

“Como vocês sabem, a casa do ‘BBB’ muitas vezes é palco de discussões importantes, que estão acontecendo na nossa sociedade agora. Às vezes, (a forma) como isso acontece lá dentro é polêmica, mas, mesmo assim, a gente gosta de olhar como uma oportunidade. E nessa madrugada o assunto levantado foi colorismo, que é quando o tom da pele determina como uma pessoa negra vai ser tratada”, introduziu o apresentador Tiago Leifert. Em seguida, foram exibidas cenas em que os rappers Projota e Karol Conká e o humorista Nego Di criticaram o fato de o economista Gil Nogueira se identificar como negro.

“Ele pode ter alguém, um avô, uma avó (negros). O racismo só sofre quem é da nossa cor, o policial não te para porque tua mãe é negra. Ele é um pouquinho sujinho. Se esfregar bem…”, disse o comediante, que, na última terça-feira, foi o terceiro eliminado da casa. No episódio, Leifert voltou a falar com os espectadores, informando que não caberia a nenhum deles questionar ou determinar se o brother – ou qualquer outra pessoa – é negro, pois, no Brasil, a autodeclaração racial é um direito.

Posteriormente, o diretor da atração, José Bonifácio Brasil de Oliveira, o Boninho, usou suas redes sociais para comemorar a repercussão imediata do debate.

Pablo Moreno Fernandes Viana, doutor em comunicação e professor de comunicação social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), também celebra o despertar de interesse da vasta audiência do programa pelo tema: “Ter essa discussão sendo pautada é algo urgente, porque ainda convivemos com o mito da democracia racial e, por isso, pouco se fala sobre racismo. Nesse sentido, que o ‘BBB’ provoque esse debate é algo que considero muito importante”, avalia, acrescentando que, “mesmo que o tratamento seja muitas vezes equivocado – e até enviesado –, é notável que o assunto passa a ser falado mais abertamente depois de ser citado no reality”.

Contudo, há quem veja a abordagem do tema no programa como um desserviço. A historiadora e mestre em cultura e sociedade Ana Gualberto está entre essas vozes. “O que me parece é que nesse espaço, que está a serviço do entretenimento, a gente tem a reprodução de uma lógica em que o sujeito branco é individual, falando por si, enquanto o indivíduo negro é coletivo e, portanto, seus erros são também de toda a comunidade negra”, sinaliza em crítica à forma como atitudes equivocadas de participantes do reality têm sido utilizadas para pôr em xeque demandas e discussões legítimas dos movimentos contra o racismo.

A historiadora pondera que é preciso cuidado ao se propor o debate sobre colorismo, pois o tema pode trazer ardis consigo. “É um tópico que precisamos debater entre nós, mas que traz armadilhas, pois, de alguma maneira, fragmenta esse conjunto de pessoas que enfrentam o mesmo problema (o racismo), desbotando uma discussão que, na verdade, deveria ser comum a todos”, analisa. Ela ainda provoca: “Se a gente for discutir quem é negro de verdade (como ocorreu no ‘BBB’), quem vai dar o atestado? Do que a gente está falando? Isso não faz sentido”, questiona a historiadora, concluindo que, se o conceito for posto desta maneira, volta-se a colocar pessoas negras de pele mais clara em um “não lugar”: “Elas sentem que não são pretas o suficiente para (integrar) o movimento negro e que não são brancas o suficiente para pertencer à branquitude”.

‘É um erro atribuir privilégios a pessoas negras, sejam elas de pele clara ou retinta’ 

A psicóloga e psicanalista Cristiane Ribeiro, mestre em saúde e prevenção da violência, concorda que o colorismo, quando debatido apenas de maneira superficial, pode se converter em uma esparrela. “Atribuir privilégios a pessoas negras de pele clara é, por exemplo, um ponto de deturpação dessa discussão, porque privilégio é algo que, em uma sociedade racista, nenhuma pessoa negra, seja ela de pele clara ou retinta, terá”, adverte.

A reflexão proposta por ela encontra eco em um artigo publicado em julho do ano passado pelo portal da organização Geledés – Instituto da Mulher Negra, que reúne mulheres negras e propõe ações contra o racismo e o sexismo. Citando dados do censo demográfico de 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a pesquisadora Gabriela Bacelar registra que, então, a taxa de desempregados no Brasil era de 8,85% para pardos, 8,93% para pretos e 6% para brancos. No mesmo período, 45,47% dos pardos, 41,10% dos pretos e 23,53% dos brancos formavam a população de baixa renda. Considerando a população preta e parda, 14% e 12,6%, respectivamente, não haviam sido alfabetizados. Já entre os brancos, o índice caía para 5,7%. A pesquisadora acrescenta que, entre 2007 e 2017, o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) registrou que, dos homens vítimas de homicídios, 64,6% eram pardos.

Diante de tais dados, Bacelar assinala, em “O colorismo e o privilégio que ninguém te deu”, que, mais “do que a aproximação estatística entre pardos e pretos (que constituem a população negra brasileira, conforme critérios do IBGE), esses números nos revelam aquilo que o movimento negro na década de 70 já nos dizia: a diferença entre nós e os brancos é abissal”. Frente a essa realidade e em consonância com pautas já em debate no país desde o século passado, ela defende a promoção de ações que busquem “educar a assumir e positivar a nossa identidade negra, não afrobege, não parda, não mulata, (mas sim) negra”.

Olhar histórico. Ana Gualberto defende que, para evitar esse ardil, não se deve perder de vista o recorte histórico da miscigenação no Brasil, tantas vezes utilizada para reafirmar o mito da democracia social. “O início da produção da memória brasileira, de uma perspectiva histórica e sociológica, traz uma narrativa muito romântica de um povo branco que interage e que se apaixona pelos povos negros e indígenas. Mas essa versão esconde uma postura de violência, de abuso”, reflete.

Pablo Moreno Fernandes Viana complementa situando que o projeto de clareamento da população ocorreu concomitantemente à abolição da escravidão no Brasil, que foi o último país ocidental a adotar a medida, em 1888. “Nesse período, guiados por um pensamento eugenista e por uma ciência racista, importantes nomes buscavam na mestiçagem uma forma para acabar com a população negra”, pondera.

O estudioso da comunicação lembra que, embora normalmente seja apresentado como um conceito muito novo, o colorismo é discutido no Brasil há décadas. “Os intelectuais brasileiros sempre falaram sobre isso, mas antes recorriam a outro termo, a mestiçagem. Nomes como Lélia Gonzales, Abdias do Nascimento e Sueli Carneiro já traziam um debate muito interessante sobre isso (desde meados da segunda metade do século passado)”, pontua.

O ‘não lugar’ das pessoas negras de pele clara

Nem brancos demais para pertencerem à branquitude, nem negros demais para buscarem acolhimento junto à negritude: essa sensação de não pertencimento das pessoas negras de pele clara acarreta prejuízos individuais e coletivos, repercutindo, inclusive, em sofrimento psíquico.

“Como sujeitos, no narcisismo primário, construímos nossa identidade a partir do olhar do outro sobre nós. Portanto, partindo da realidade brasileira, é esperado que o indivíduo busque se distanciar do lugar do negro, que é entendido como o pior lugar dentro dessa lógica racista”, examina Cristiane Ribeiro. “Não raro, nas histórias de vida de sujeitos negros, a gente escuta as mais diversas violências: há mulheres negras que desconhecem a estrutura do próprio cabelo porque tinham que passar por procedimentos agressivos de alisamento desde a infância; pessoas que se lembram como os pais delas usavam prendedor de roupa para evitar que o nariz ficasse mais largo; avós que só aprovavam relacionamentos com brancos para ‘branquear o útero’…”, cita.

Logo, o mais comum é que pessoas negras de pele mais clara, diferentemente da postura do brohter Gil Nogueira, não reclamem para si a identidade negra. “Essa compreensão de si é uma operação difícil”, indica Cristiane. “Para começar, veja que, para reconhecer que minha família mestiça pode ser fruto de um estupro – como no caso daquelas pessoas que contam que suas avós ou bisavós foram ‘pegas no laço’ –, exige um grau de elaboração muito sofisticado. Elaborar que meu pai, negro de pele retinta, colocava um pregador de roupa no meu nariz, e nomear isso como violência, exige que eu o destitua de um lugar idealizado de protetor…”, avalia. Por conta disso, pode parecer mais fácil para esses indivíduos anular a própria negritude. E, mesmo que tenham enfrentado episódios de racismo, muitas vezes, essas situações são ignoradas: sentindo-se em um limbo, esses sujeitos têm dificuldade em se reconhecerem vítimas desse tipo de violência.

A dificuldade de a pessoa negra de pele clara se reconhecer como tal é abordada no já mencionado artigo da pesquisadora Gabriela Bacelar. “Li a monografia de uma jovem pesquisadora que, com outras jovens mestiças (como ela), queria compreender como essa identidade ‘parda’ estava sendo elaborada. Uma das entrevistadas lhe disse que, embora se reconhecesse negra, nunca havia sofrido racismo. A pesquisadora usava, entre outras falas, esta, para perguntar: ora, como resolver a identidade desse indivíduo fora do dualismo branco e negro? Parágrafos depois, a história de vida dessa jovem nos é apresentada. Ela teria sido expulsa de casa ao assumir o seu cabelo crespo, que a mãe não aceitava. Nunca sofreu racismo?”, escreve.

Diversidade. A psicóloga Cristiane Ribeiro lembra que existe uma ampla diversidade de pessoas brancas. “Há aquelas que são ruivas, loiras ou morenas. Em nenhum momento vemos alguém questionar se elas são menos brancas por conta desses traços”, situa. Por outro lado, parece penoso para a sociedade reconhecer que há diversidade também na população negra. “Acredito que essa dificuldade de reconhecer o povo negro como um povo constituído a partir de suas individualidade, como um povo diverso, diz dessa tentativa de encarar essa população como um bloco homogêneo e coisificado”, critica.

Fonte: jornal O Tempo

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