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Comandos Africanos da Guiné, as histórias que Portugal e PAIGC querem esquecer

Num jogo de poder e manipulação, Portugal forçou pelo menos 600 homens e jovens rapazes guineenses a alistarem-se nos comandos africanos da Guiné, uma tropa de elite que, durante a guerra do Ultramar, lutou por Portugal, a única pátria a que juraram lealdade.

Suspensas na linha do tempo ficaram as promessas de uma nação, que se dizia do “Minho a Timor”, feitas a estas centenas de homens – e às suas famílias. Muitos acabaram por morrer de velhice, com o corpo e a memória cravejados de mazelas e ressentimento por terem sido empurrados para o lado errado do campo de batalha, o do colono.

O caso mais conhecido destes militares, e que teve um fim muito diferente daqueles que ficaram na Guiné, é Marcelino da Mata, o militar português mais condecorado da História e que faleceu no ano passado. Muitos dos seus camaradas de armas morreram com a esperança de um dia virem a ser reconhecidos pelo Estado Português, que lhes prometera melhores condições de vida e nacionalidade. Outros tantos continuam à espera desse dia, no seu país natal.

Cinquenta anos depois, estas histórias e fatos foram contados na primeira pessoa para uma tese que acabou por resultar também numa reportagem/documentário. Intitulada Por Ti Portugal, Eu Juro!, a peça está disponível na plataforma online Divergente, tem quatro capítulos e é assinada pelos jornalistas Sofia da Palma Rodrigues e Diogo Cardoso.

O decreto 17/77, de 7 de janeiro de 1977, considerando o compromisso do Acordo de Argel, assinado entre o Governo Português e o PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), indica que “o governo português pagará ainda as pensões de sangue, de invalidez e de reforma a que tenham direito quaisquer cidadãos da República da Guiné-Bissau por motivos de serviços prestados às Forças Armadas portuguesas. […] O governo português participará num plano de reintegração na vida civil dos cidadãos da República da Guiné-Bissau que prestem serviço militar nas Forças Armadas portuguesas e, em especial, dos graduados das companhias e comandos africanos.”

Contudo, depois da independência, muitos destes homens, além de terem sido deixados para trás pelo governo português, foram perseguidos, torturados ou fuzilados pelo PAIGC, que os considerava uma ameaça à nova ordem.

O Spínola dizia-nos que seríamos os futuros homens da Guiné. Ele foi um grande homem, um político, tinha uma grande cabeça. Quando apanhei o estilhaço aqui nas costas, ele foi visitar-nos ao hospital e cumprimentou-nos. Até lhe dei a mão, vi-o mesmo de perto. Ele dizia-nos para ter coragem, que defendêssemos a nossa terra, que defendêssemos a nossa bandeira. Nós não sabíamos que estávamos a ser enganados…. era mobilização. Quer dizer, eu pensava que era verdade. Porque tu cresces debaixo de alguém, a Guiné é pequena, tu nasces nas mãos de alguém até seres homem, tudo o que te disserem, pensas que é verdade. Ou não? A mim, se me viesses dizer que Portugal estava contra a Guiné-Bissau, ia dizer-te que não. O Spínola falava sempre muito bem, dava-nos coragem. Até nos foi visitar em Fá Mandinga, na instrução militar. Enganou-nos.

O relato é de Mário Sani, um dos integrantes dos Comandos Africanos, detido e torturado pelo PAIGC e que, assim que conseguiu escapar, andou em fuga durante 40 anos por quase toda a África Ocidental. O relato doloroso faz parte da tese de doutoramento em Pós-Colonialismos e Cidadania Global de Sofia da Palma Rodrigues.

A maioria destes homens não sabiam ao que iam. Cumpriam apenas ordens e questionar não fazia parte das suas funções nem permissões. “Como disse, não sabia o porquê da guerra, depois da independência é que vi que o PAIGC lutava pela liberdade da Guiné. Agora sei que tinha toda a razão. Nós errámos porque não sabíamos. Deviam ter-nos sensibilizado, apesar de não ter sido por nossa vontade, como cidadão português era obrigado a ir para a tropa. Mas não, em vez disso, só prenderam e mataram as pessoas. Só as feras matam assim. Mataram muita gente, mataram muitos colegas dos comandos, é triste. Muitos dos meus colegas de infância perderam a vida. É triste. Triste“, explica ainda o ex-combatente.

Este projeto multimédia, que conta com a narração do ator e encenador guineense Joãozinho da Costa, está dividido em quatro capítulos, onde Sofia e Diogo tentaram ouvir todos os lados da história. Foram quatro viagens à Guiné-Bissau que se traduziram em praticamente seis anos de desenvolvimento da peça, sustentados financeiramente através de várias bolsas.

Tudo começou quando, numa dessas viagens à Guiné, Sofia foi abordada pelo filho de um ex-combatente que incorreu numa luta pela efetivação das promessas feitas ao pai. Daí, estava dado o ponto de partida para desenterrar esta história que envolveu uma pesquisa profunda e morosa, praticamente porta-a-porta, de outros testemunhos. Para a publicação, tudo foi escrutinado e pensado ao detalhe. “Como a história é muito densa, queremos que as pessoas tenham tempo para digerir e pensar nela e, por isso, decidimos dividir em quatro capítulos. O primeiro foi publicado no dia 30 de setembro, o segundo será publicado em novembro, o terceiro em dezembro e o quarto e final será publicado em janeiro de 2022. Estes quatro capítulos têm também abordagens diferentes, este primeiro é sobre como estes homens eram aliciados para o serviço militar, o segundo será sobre os comandos africanos, o terceiro sobre o pós 25 de abril, a fuga e os processos por que passaram durante as perseguições e o quarto será sobre o que não foi feito, o que pode ser feito e quais as respostas que as instituições têm dado a estes homens”, explicou Diogo.

Questionados sobre as motivações para cavar as histórias enterradas na memória, tanto do lado de Portugal como do da Guiné-Bissau, Sofia explica-nos que o espectro é muito mais amplo. “Isto não se trata de uma questão de verdade. Trata-se de uma disputa de verdades. Porque o Estado da Guiné Bissau, com o PAIGC, contam uma história, e estas pessoas, que foram instrumentalizadas de um lado e de outro, têm outra história para contar. Há um abandono do Estado português e há uma dívida histórica para com estas pessoas mas também problematiza a história do movimento de libertação, que promete um país para todos os africanos, mas o que acontece em seguida são perseguições e fuzilamentos”, conta-nos Sofia de Palma.

Com o lançamento da primeira parte de Por Ti Portugal, Eu Juro!, surgiram também os primeiros comentários de pessoas que estiveram implicadas na guerra. “Houve um grande feedback da parte de militares metropolitanos, de pessoas que combateram com africanos na mata na Guiné e que dizem ‘isto que estas pessoas contam é verdade’, como também houve um sentimento de exclusão: ‘mas eu também estive lá, fui fuzileiro, fui da companhia de caçadores, ninguém pega na minha história por que é que estão a contar a história dos comandos da Guiné e não estão a contar a nossa?’, como houve também quem dissesse que a investigação foi feita com base em mentiras. Ainda não respondemos a isso, porque vai ser o terceiro e o quarto capítulo da história, portanto ainda não demos feedback a esses comentários”, explicou-nos a jornalista.

“Temos a sensação que a história está a chegar às pessoas. Que tem havido um apoio crescente de quem nos segue, seja crítico em relação ao trabalho que desenvolvemos, seja financeiro, e isso deixa-nos optimistas para o que vem aí com esta linha positiva e crescente de apoio”, concluiu Sofia da Palma.

Por Ti Portugal, Eu Juro!, está disponível no site da Divergente, através de uma experiência que navega entre áudios, textos, fotografias e vídeos.

Fonte: Eddie Pipocas para BANTUMEN

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