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Mayara Aguiar, do ‘Superbonita’: ‘Ainda sofremos com estereótipos, mas não daremos nenhum passo atrás’

A diretora da TV Globo conta sobre o movimento de afirmação da beleza negra no Brasil, a importância da representatividade e a tendência do momento, o autocuidado

Mayara Aguiar afirma que nunca se considerou exatamente vaidosa. E é meio engraçado ouvir isso dela, porque na videoconferência dessa entrevista era a mais bem vestida, penteada e maquiada das três participantes. Talvez você nunca tenha ouvido falar nela, porque é uma mulher dos bastidores, mas pode-se dizer que nos últimos meses virou uma expert em beleza, ao assumir o comando do programa “Superbonita”, um dos mais importantes da TV no segmento da beleza, que chegou à sua 20ª temporada neste ano.

Mayara tem 34 anos. Em suas palavras, é uma mulher “preta e sapatão”, prestes a se casar, e já falando aqui e acolá em maternidade, no meio do papo que incluiu temas como skincare, preconceito, maquiagem, representatividade, exercícios de respiração e racismo. E se essa mistura parece heterodoxa para você, a diretora faz com que tudo faça sentido, pega na mão para explicar como a falta de técnica de maquiagem pode ser o retrato de uma estrutura racista. “As profissionais que ainda têm dificuldade em mexer na minha pele, que vão me deixar esbranquiçada ou fora do meu tom, têm que estudar, pesquisar, trabalhar e descobrir como cuidar de mim. Estou consumindo, estou te contratando, vem ligada em como mexer em todas as peles”, afirma na entrevista a Gama.

Nesta 20ª temporada do Superbonita, a diretora do GNT, que se prepara para dar um salto e dirigir sua primeira novela na rede Globo, a novela das 7 “Cara e Coragem”, dirige Taís Araújo e se deu como missão lançar um olhar pessoal ao programa, incluindo temas como a dupla maternidade e sempre com o cuidado de ser o mais democrática possível, tanto no que diz respeito às classes sociais quanto às diferentes idades.

Entre as convidadas do programa, dirigiu ícones da beleza brasileira, mas uma em especial tirou seu fôlego: a atriz Zezé Motta. Fã confessa da atriz, Mayara diz que ficou emocionada com a surpresa de Zezé em ver uma mulher negra na direção. “’Nunca vi isso’, ela disse. E aí foi impossível não cair no choro”, conta, na entrevista que você lê a seguir.

Não somos minoria, mas éramos um mercado esquecido que eles não faziam questão de procurar

  • G |Quais os maiores desafios e vitórias dessa 20a temporada do “Superbonita”?Mayara Aguiar |Trazer mais representatividade e diversidade para a tela. Conseguimos trabalhar com grandes especialistas negros, artistas, anônimas, que tinham feito parte desses 20 anos de construção do programa. O grande papo dessa temporada era revisitar os 20 anos do Superbonita. Ao longo desse tempo, muita coisa mudou no mundo da beleza. Fico muito feliz porque conseguimos alcançar o objetivo. Saímos desses dez programas com falas incríveis, como a da Mc Soffia, que é uma adolescente de 17 anos, dando o papo, dizendo que não era escolhida nos espaços de noitada; com a da Fernanda Torres, que contou que nunca se encaixou em um padrão de beleza, com a da Andrea Beltrão, falando sobre envelhecimento.
  • G |Como o programa mudou com você na direção? Ao assistir às outras temporadas, identificou coisas que tinha vontade de mudar?MA |O GNT é um dos canais que andou junto ao tempo, eles têm documentários incríveis, pensam à frente, têm muita diversidade. Eu não tive que construir nada, só colocar o meu olhar. E faço isso quando reforço com eles que precisamos falar sobre maternidade lésbica, por exemplo, porque eu sou uma mulher preta sapatão e pretendo maternar. Trouxemos uma fala da Nanda Costa com a Lan Lahn. E é importante que a Lan Lahn tenha uma fala porque é a mãe não-gestante, que precisa ser apresentada para as pessoas. A maioria das líderes do GNT é de mulheres; elas já tinham um desenho muito bem feito e muito bem pensado, por isso não foi difícil para mim trazer o olhar de uma mulher de 34 anos que vem de uma luta.
  • G |E no Brasil, como acha que a ideia de beleza tem mudado nos últimos tempos? No programa vocês falam em “novas realidades de beleza”, o que que é isso?MA |Queríamos refletir sobre os assuntos que permeiam o universo feminino da sociedade e reforçar o autocuidado. A beleza, hoje em dia, não anda separada dele. Não se consegue construir muita coisa sem ter um cuidado mental. Óbvio que ninguém quer sair feio em uma foto. Mas eu acho que precisamos dizer: “Não queremos sair feio na foto, mas precisamos tomar cuidado com os filtros do Instagram”. Para mim, foi muito interessante conversar sobre beleza porque eu não me considero vaidosa, e descobri que eu até era um pouco, porque tenho alguns preconceitos. Tenho uma olheira que me incomoda bastante. Eu saía dos papos oscilando entre “será que dou uma ajeitada?”, será que faço uma puta foto falando “Tenho olheira sim, que se dane”? Para mim, a ideia é falar de autocuidado, com a preocupação do que pode funcionar para todo mundo. Nem todo mundo pode comprar um creme de peeling.

Eu tenho 34 anos e descolori o cabelo pela primeira vez. Parece bobagem, mas é imenso para uma mulher negra

  • G |Há uma nova ideia social da beleza negra? Os personagens estereotipados desapareceram?Mayara Aguiar |Não. Existe um movimento muito mais forte para evitar que eles continuem, mas eles ainda estão por aí. A [atriz e passista] Juliana Alves conta no programa que quando começou na carreira, era um lugar de “caramba, mas você é do samba, não vai conseguir ter uma personagem x, não vai conseguir alcançar um lugar tal”, uma negra alta. A gente ainda tem estereótipos que nos cercam. Eu tenho 34 anos e descolori o cabelo pela primeira vez. Parece bobagem, mas é imenso para uma mulher negra. Quando você descoloria o cabelo antigamente, você era caracterizada como uma pessoa de um lugar menor. Uma pessoa me falou “você vai descolorir o cabelo e como vai entrar na empresa assim?”. E era uma pessoa esclarecida, mas branca. E eu falei que iria entrar feliz. Quando eu digo que isso acabou, estou jogando para o universo na tentativa que em algum momento acabe, mas não acabou. Ainda sofremos com estereótipos, mas agora não daremos nenhum passo atrás.
Instagram Taís Araújo
  • G |A representatividade ajuda na mudança dos padrões? Ou eles só se ressignificam?Mayara Aguiar |Tem uma batalha ainda, é tudo tardio. Tudo o que falamos agora poderia ter sido falado antes e muitas dores teriam sido evitadas. A conversa da Taís [Araújo, apresentadora desta temporada do “Superbonita”], que é uma mulher de mais de 40, e da Mc Soffia, de 17, era a mesma. Talvez a minha filha não tenha mais esse papo. Mas essa cadência vem lá de trás, com a Zezé Motta. Eu, Taís e ela, somos de três gerações diferentes, mas que viveram dores muito semelhantes. A preocupação é que as próximas não vivam essas dores. Hoje há mais representatividade. Se for parar para pensar, não havia comercial da Kerastase com uma mulher negra. Era uma Fernanda Torres. Mas hoje eles nos procuram porque não querem ficar para trás. Fazemos parte de 57% da população, consumimos para caramba, damos dinheiro. Não somos minoria, mas éramos um mercado esquecido que eles não faziam questão de procurar. Agora, estamos aqui e cabe a nós nos colocarmos no lugar que quisermos, escolher os espaços onde queremos estar. Hoje o nosso povo preto está interessado em se colocar e fazer parte da diversidade, mas a gente quer saber onde está pisando e o porquê. Por que você me quer vinculada à sua marca? Por que decidiu ser representativo se dez anos atrás você não tinha um creme e uma roupa para mim? Vocês querem andar junto, né? Entendi. É pouca gentileza e tem toda uma jogada, mas a gente não é burro.
  • G |A modelo britânica Leomie Anderson viralizou no Twitter ao documentar a inépcia de maquiadores profissionais em fazer make em seu rosto. A falta de produtos foi superada, mas há uma falta de técnica?Mayara Aguiar |Eu espero que comece a mudar, mas existe sim. Tem uma puta dificuldade de achar profissionais. Grandes personalidades negras fazem questão de se maquiar com mulheres negras também. Porque a gente conhece a nossa pele, é muito mais fácil. A verdade é que a estética e a beleza vieram para nós faz pouco tempo. Como a Mariazinha que é uma maquiadora fenomenal vai pensar em uma mulher preta? A gente não tinha esse acesso, fazia em casa, aprendia com as mães e avós aqueles cuidados antigos. Agora não; agora o empoderamento veio para isso também: quero ficar bonita sim. Eu espero que as maquiadoras e que esse nicho nos abracem. Vai fazer um curso, vai aprender a mexer na minha pele, senão você não vai ser a pessoa que eu vou escolher. Tenho sorte de ter pessoas brancas que conseguem mexer no meu tom de pele, mas estou no maior veículo de comunicação da América Latina. As profissionais que ainda têm dificuldade, que vão me deixar esbranquiçada ou fora do meu tom, têm que estudar, pesquisar, trabalhar e descobrir como cuidar de mim. Estou consumindo, estou te contratando, vem ligada em como mexer em todas as peles. Na minha, na sua, na da Dira [Paes, atriz, que faz uma participação no “Superbonita”]. A vida está pedindo e eu percebo que as pessoas estão a fim de ouvir e aprender.
Instagram Taís Araújo
  • G |Você fez um post superemocionado falando da Zezé Motta. Que outras pessoas você considera importantes para a história da beleza negra no Brasil? Entre mulheres e homens também.MA |Dona Zezé é tudo. Eu comecei a ver TV, escondida, por “Xica da Silva” (TV Manchete, 1996). Então imagina o que foi ter eu, Taís e ela no set – uma choradeira. Ela disse para mim que era a primeira vez que ela via isso ali dentro, e que demorou para entender: uma mulher negra diretora em uma empresa de comunicação. Quando ela falou aquilo, não teve como segurar. A dona Zezé foi o ícone Xica e passou o bastãozinho para a Taís. É legal também quando você pergunta de homens. Em “Na Minha Pele”, o Lázaro [Ramos, ator, casado com Taís Araújo], diz que não se achava bonito. E ele foi um dos primeiros galãs negros. Isso para a gente é uma loucura e muito novo, para mim ele é um homem lindo. Mas por muito tempo, homens como ele não eram vistos como galãs. Eu era assinante da “Capricho”, e quem eu via na revista era Taís, Camila [Pitanga, atriz], no máximo. E olha que maravilha: depois veio a revista “Raça”. De mulheres antigas eu vou deixar a Zezé, Léa Garcia, vaidosa, chique, linda. Chica Xavier, de uma elegância. E agora explodiu e temos Ícaro [Silva, ator], Maicon Rodrigues. Falo para eles que, se existisse “Capricho” ainda, eles estariam loucos fazendo festinha de 15 anos. Essas coisas que eram tendências. Na minha festa de 15 anos, quem eu iria chamar? Bruno Gagliasso é um gato, mas e aí? Ele não lembra o meu irmão, não lembra o meu pai. Se a minha filha tiver interesse por essas coisas ela vai se ver, vai ter muita representatividade.

  • G |Pessoas públicas e principalmente famosas, que vivem da imagem, podem colaborar para romper com os padrões inalcançáveis que estamos acostumados a ver?MA |Tem os perigos dos filtros e eu tenho pavor disso. Não de não usar filtro, mas da necessidade de alimentar essa vida perfeita, sabe? Por que tem que ser uma foto sem acne, sem mancha, sem cicatriz? Minha preocupação vem lá de trás, da saúde mental dessas pessoas, para onde a gente vai com isso? Por que eu não posso colocar uma foto com a olheira? O assunto começa na beleza mas fica gigante e termina no autocuidado, na aceitação, que está cada vez mais forte. Apesar da gente oscilar com essa confusão dos filtros e do padrão, da plástica, tem uma mulherada aí que fala “Eu sou muito linda assim”. O desconstruir é aos poucos, não é da noite para o dia, e se você me perguntar “Você sempre se achou linda?”, eu vou falar não. Mas hoje em dia eu consigo fazer uma brincadeira comigo de falar “Nossa, você tá muito gata hoje”. Todo dia não, mas evoluí, porque antigamente eu queria me esconder. Eu já tive uma época de querer mexer no nariz porque escutava na escola “lá vai a Mayara, nariz de batata”, olha que perigo. Aquilo fazia eu querer mudar o nariz e imagina como hoje eu estaria arrependida se a minha mãe tivesse compactuado com aquela dor. Hoje em dia, as pessoas estão aí fazendo fotos superclose de uma pessoa preta, do nariz, da boca. É uma evolução, devagarzinho, mas tá rolando.
  • G |Como é falar de beleza para mulheres mais velhas?MA |A minha mãe não teve essa oportunidade de cuidar da beleza, da pele. E, pensando nela, tive uma preocupação de falar com as roteiristas para ajustarmos o texto para falar também para essas mulheres. Tem um movimento muito legal dos cabelos grisalhos, das mulheres se libertando da tintura e se apropriando, se divertindo em usar o grisalho. Tem um poder aí gigantesco. Temos uma modelo que fez um tutorial no “Superbonita” sobre os cabelos grisalhos. Ela falou “passei muitos anos tentando me esconder, e agora eu estou vivendo essa libertação”. Aqui eu volto para o autocuidado: até as mulheres mais velhas estão respeitando mais seus desejos.

  • G |Pra terminar, você pode nos dar uma dica de beleza?MA |Vivemos em um mundo muito corrido e precisamos naturalizar o papo sobre ansiedade. Eu fico ansiosa às vezes e, quando acontece, eu fico cinco minutos em silêncio no escuro. Faço um exercício de respiração que me ajuda bastante. Pode ser até no banheiro do trabalho. Não vai te atrasar para outra reunião, para e faz, são 5 minutos e você vai entrar diferente na outra. De beleza mesmo, eu diria, acredite no skincare. Comecei na pandemia, aprendi com a minha esposa maravilhosa, toda vaidosa. Eu ficava “Ai, que negócio esquisito”, mas sinto a diferença. Você tem que achar o que é tranquilo para a sua pele. Skincare é a pegada, parar para respirar cinco minutos, e depois ficar bem gata.

Fonte: Isabelle Moreira Lima e Andressa Algave para Gama Revista

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